domingo, abril 4

Closer


Meu nome é Jane Jones. Eu nasci num bairro comum, de uma cidade comum. Fui a primeira (e única) filha de um casal que queria muito ter uma filha. Nossa família éramos nós três. Meu pai, minha mãe e eu. Nunca conheci avós, nem tios. Minha mãe dizia que o amor fazia uma família. Nunca entendi o que ela quis dizer. Acho que meus avós eram contra seu casamento. De vez em quando eu pegava mamãe chorando escondida no quarto, com uma foto de uma casa londrina, uma criança sendo empurrada no balanço por um homem rindo e uma mulher séria com um bebê no colo ao lado. Sei que era uma casa londrina porque se parecia com uma americana, só que maior. Mamãe sempre dizia que os ingleses importavam o melhor dos Estados Unidos. A moça séria da foto tinha os cabelos presos num coque. Mamãe nunca usava coque, dizia que os cabelos de uma mulher tinham que estar sempre soltos, para que parecesse doce, mas sempre curtos, pra que parecesse forte.

Mamãe tinha o rosto sério, como o da moça na foto, às vezes era doce e às vezes não era forte.

Papai, como o moço da foto, estava sempre sorrindo. Papai era sempre doce e sempre forte. Menos quando perdeu o emprego.

Às vezes eu entrava escondida no quarto da mamãe, abria seu armário e pegava a foto no fundo da gaveta, dentro de uma caixa de sapato. Passava horas olhando pra ela. Imaginava que aqueles eram os pais da mamãe e ela era a criança do balanço, ou a do colo. Às vezes imaginava que eu era a criança do colo e aqueles eram meus pais. Às vezes que aqueles eram meus avós, e o bebê era minha mãe e a criança do balanço meu pai. (Sempre achei meus pais parecidos fisicamente, mas também achava os pais de algumas das minhas amigas parecidos. Mais tarde ouvi dizer que um casal junto há muito tempo fica parecido).

Uma vez perguntei pra mamãe porque ela estava chorando quando olhava a foto. Ela disse que o amor às vezes doía. Perguntei como, ela ficou muito nervosa e disse que eu saísse antes que ela me mostrasse como. Mamãe nunca me bateu. Acho que nunca precisou. Às vezes eu tinha medo dela. Esse dia eu tive. Comecei a chorar e mamãe me disse que não se chora sem motivo. Peguei minha bicicleta e saí pedalando rápido e chorando. Eu acho que tinha uns 7 anos. Caí. Arranhei o joelho e voltei pra casa mancando e chorando, mas desta vez com motivo, a dor. Quando mamãe me viu, me pegou no colo, limpou meu machucado, me colocou na frente da TV e me fez um sanduíche de geleia sem cascas. Daí em diante sempre que mamãe ficava nervosa ou eu fazia algo em que podia me meter em encrenca eu saía de bicicleta e caia. Se eu não caísse sem querer eu me jogava. Ralava o joelho e ficava tudo bem. Com o tempo não precisei mais da bicicleta pra me machucar.

Uma semana antes do meu aniversário de 8 anos papai foi despedido. O meu aniversário sempre foi o dia mais feliz do ano. Papai fazia uma festa e chamava todas as minhas amigas. No ano anterior enchemos bexigas, penduramos fitas coloridas e rimos muito. Estamos sempre rindo. Quanto mais papai ria, mais eu ria também. Ele dizia que minha risada alcançava o bairro todo. Naquele aniversário de 8 anos papai sentou num canto da sala e ficou lá o tempo todo, triste. Eu nunca tinha visto papai assim. Mais tarde, quando me colocou pra dormir, disse boa noite com ar de despedida. Naquela noite ele envelheceu 10 anos. Eu nunca mais o vi sorrir. E minha risada nunca mais alcançou nem o outro lado da sala. Papai ficava o dia vagando pela casa. Mamãe arrumou outro emprego. Papai começou a beber.

Um dia ouvi papai gritando com mamãe no quarto. Ele a acusava de traição e irresponsabilidade. Depois as brigas ficaram mais frequentes, saíram do quarto pra casa, com papai andando atrás da mamãe quebrando coisas.

Uma noite mamãe me acordou com malas prontas. Eu disse que não ia, que queria ficar com papai. Fiz tanto barulho que papai acordou. Mamãe foi embora. Eu fiquei. Dias depois ela voltou pra me buscar. Papai chorou e pediu pra ela ficar. Eu ainda não queria ir. Mamãe me agarrou pelo braço e insistiu. Olhei pra trás e pra pedir socorro pra papai e então eu vi a arma. Não sei se meu grito veio antes ou o tiro. Mamãe caiu no chão e eu corri pro meu quarto. Estava no chão entre minha cama e o armário, muda, quase sem respirar, quando ouvi o segundo tiro. Achei um compasso no chão. Arranhei minha perna até sentir dor que me fizesse chorar. A polícia me achou com o sangue escorrendo no carpete, a gola da blusa molhada de lágrimas, repetindo “por que? Por que?“.

Nos primeiros meses no orfanato não falava com ninguém. Um dia, no meio da aula, uma garota me provocou. Ela já tinha me irritado o dia inteiro. Disse algo sobre meus pais, não me lembro o que. Fiquei com tanta raiva que queria bater nela, mas ela era muito maior que eu. Quis chorar, mas achava que não era motivo suficiente pra chorar. Meus pais tinham morrido, aquilo era o único motivo que eu tinha pra chorar, nada era maior que aquilo. E mamãe disse que era preciso um motivo. Então lembrei da bicicleta e do compasso. Peguei meu lápis sem ponta e afundei no braço. Quando senti muita dor, chorei. Aprendi a fugir pra dor física sempre que eu queria chorar. E depois a esconder, a machucar lugares não visíveis pra que ninguém percebesse.

Uma vez eu enxugava as lágrimas enquanto limpava um corte na perna quando uma menina me ofereceu um band-aid. Era Alice. Ela era destemida, livre. Ela virou minha melhor amiga, e eu a dela. Nos metíamos em milhões de encrencas. Alice dizia que tínhamos que nos sentir vivas e que o único jeito era vivendo intensamente. Quando tinha 15 anos, Alice decidiu que tínhamos que fugir do orfanato. Fazíamos de tudo pra sobreviver, fomos garçonetes, balconistas, strippers. Então Alice arrumou um namorado. Ele começou a tomar um espaço muito grande da vida dela, e eu não queria perdê-la, não podia suportar a ideia de ficar sem quem eu amava mais uma vez. Ela ia me esquecer, ia me deixar. Então eu fugi.

Conheci Tomas. No começo era como as minhas festas de aniversário, mas depois era como nos primeiros meses no orfanato. Um dia ele me levou pra jantar. E eu já não ouvia mais as risadas, só o silêncio. Então olhei pra ele e disse “Eu não te amo mais. Adeus”. E fui embora.

Depois veio o Douglas, depois o Teo. E era sempre igual. Festa, orfanato, “eu não te amo mais. Adeus”.

Aí veio o William. Na época eu trabalha numa casa de strip, ele era meu cliente. Com ele era diferente, era perfeito. Fomos morar juntos, e ele já não era mais muito fã do meu trabalho. Um dia ele chegou em casa com cheiro de perfume. Eu não usava perfume. Fingi não perceber. Um tempo depois ele disse que ia me deixar pra ficar com ela. Discutimos. A discussão virou briga e entre gritos peguei a arma dele. Quando ele chorava e implorava pra que eu não o matasse percebi que eu podia matá-lo ou deixá-lo viver, mas de qualquer modo ele não me amaria mais. Além do mais eu não podia amar alguém tão fraco. “Eu não te amo mais. Adeus”. Deixei a arma cair no chão, peguei meu casaco e minha mochila, e fui embora.

Fiquei andando, chorando. Não sabia pra onde ir, o que fazer. Dentro da minha mochila achei aquela foto. Londres. Um novo começo, em Londres. Era lá que estava a felicidade.

Dias depois estava andando pelas ruas de Londres e vi William com a ex-amante, atual esposa, em lua-de-mel. O que ele estava fazendo aqui? Na minha cidade, na minha felicidade, na minha vida nova? Percebi que eu jamais seria feliz novamente, que nunca mais iria amar. Era o fim, não tinha mais porque viver. Andei sem olhar por onde, atravessei a rua sem olhar, esperando ser atropelada. Entrei num parque, o Parque do Carteiro, que é também um memorial pra pessoas comuns que morreram salvando outras pessoas, uma delas chamava Alice Ayres, morreu num incêndio, salvando três crianças. Me lembrei de Alice, vivendo intensamente. Atravessei a ponte, mas não tive coragem de pular.

Parei no farol, olhei pro outro lado da rua e então eu vi um homem. Ele me olhou nos olhos. Ele era sério como a mamãe, doce como o papai. Atravessei. Acordei caída no chão, em seus braços, olhei nos olhos dele e soube. Jane tinha morrido, eu agora era Alice Ayres.

domingo, fevereiro 15

Diferenças

Eu sou inverno, ele é verão
Eu sou razão e ele coração
Ele é engraçado, eu sou contente
Ele é esperto, eu sou inteligente.

Ele usa boné e eu uso maquiagem
Eu gosto de TV, ele gosta de viagem
Eu vou à opera, ele joga uma pelada
Ele deixa bilhetinhos, eu sou meio desligada.

Ele conhece o bairro todo, eu só tenho 7 amigas
Eu vivo gritando e ele sempre acaba as brigas
Eu gosto de cinema, ele de pipoca
Ele gosta de conversa, eu gosto de fofoca

Ele quer casar, eu quero ter sucesso
Ele sempre quer carinho, eu quase nunca peço
Eu canto, ele dança também
Eu sou bilingue, mas ele beija bem.


*escrito em 01/12/03

terça-feira, setembro 16

Chuva

Tem dias que a vida ri da gente. E tem dias que a gente ri com a vida.
Nenhuma tempestade é eterna. A chuva que molha é a mesma que nos faz fortes. Por mais que agora só dê pra perceber que chove.
Com tempo a chuva passa. Com tempo a visão distorcida pela chuva fica mais clara. O tempo limpa a visão. Mas o tempo não muda o cenário. Ele é o mesmo de antes da chuva, o mesmo que estava lá durante a chuva, e o mesmo depois da chuva. O tempo não muda isso. O tempo não muda nada. O tempo não muda pessoas, o tempo não muda florestas, o tempo não muda cores. O tempo não muda a casa da árvore que era seu paraíso. O tempo não muda o fato de você ter caído da casa e se machucado feio. O tempo não muda o fato de que você ainda ama aquela casa, mas não quer mais morar lá, porque sabe que vai cair de novo. O tempo não muda aquela casa. O tempo não muda seu sentimento. E o tempo não muda sua decisão. Por mais que aquela casa seja maravilhosa. Por mais que seja difícil ficar longe do que se ama. Você sabe o que é melhor e você sabe que o que é melhor não é o mais fácil. O tempo não muda isso.
O tempo é o espaço preciso pra baixar o lodo do lago que se levantou com a chuva. Mas você não vai nadar no lago porque o lodo vai levantar de novo. Vai chover de novo. Mas você pode olhar pro lago, gostar do lago, pode até colocar seus pés no lago. Mas não vai entrar lá de novo. Ah se um dia parasse de chover...
Essa chuva vai passar, e é bom se mudar pra não pegar essa chuva de novo. Essa tempestade você já conhece, e no fundo, você sabe que não vai mudar, então deve evitar.
E quando a chuva passar vai deixar flores. Porque no fim, você ri pra vida, e segue adiante.

terça-feira, abril 15

Amizades

Os lugares nos trazem amigos.
Os lugares nos trazem colegas.
Os lugares nos trazem estranhos.
Os lugares nos dão alegria.
Os lugares nos dão companhia.
Os lugares nos dão novidade.
Não é todo mundo que é amigo.
Não é todo mundo que é colega.
Não é todo mundo que é estranho.
Não é todo estranho que vira colega.
Não é todo colega que vira amigo.
Amigo a gente não escolhe, ele de repente é.
O trabalho me deu 3 amigas. De nomes comuns e até repetido.
Sabem meus segredos e dividem minhas angústias.
Me levam pra passear e falam sem ter o que falar.
Torcem por mim, riem comigo, e dividem também.
Confio, gosto e cativo.

segunda-feira, abril 14

I hate, I love

I hate you when you are gone
I love you when you come
I hate you when I don't hear from you
I love you when you say you love me too
I hate you when you don't seem to care
I love you when your life you share
I hate you when you make me wanna cry
I love you when you make me feel so shy
I hate you when you put me down
I love you when you are my clown
I hate you when I feel I'll fall
I love you when you give me a call
I hate you when I'm not the only one
I love you when you say you're having fun
I hate you when you have to think twice
I love you when you want my advice
I hate you when you make me mad
I love you when you make me glad
I hate you when you say good-bye
I love you when my tears you dry
I hate you when I'm not your aim
I love you when you say my name
I hate you when you screw it up
I love you when you cheer me up
I hate you when I miss you
I love you when I kiss you

quinta-feira, março 6

Coisas que você precisa saber

As coisas que eu sei, toda mulher sabe. Agora essas são as coisas que os homens precisam saber:
1 - Eu entendo quando a Natália diz que eu não preciso comprar o DVD pra ela e depois fica com aquela carinha de "porque você não comprou?".
Porque no fundo nós mulheres somos assim mesmo. Não falamos só a verdade. E às vezes dizemos exatamente o contrário do que realmente queremos. Dizemos pro cara que vamos evitar lhe ver, pensar nele e não vamos falar com ele por um tempo, mas na verdade adorariamos que ele ligasse e dissesse: "eu sei que você disse que não queria falar comigo, mas não aguentei, precisava ouvir sua voz!". Porque eu falo que não vou te escrever, mas secretamente eu checo meu email e orkut todo dia. Mulher é assim mesmo. E se eu falo que não tenho ciúme de você pode ter certeza que eu vou fuçar o orkut de todas suas ex, o seu e de todos os seus amigos pelo menos uma vez por dia. Pelo menos. E se eu te disser não me ligue, não é um teste. Mesmo. Mas se você ligar, você passou!
2- Quando eu reclamar ou contar algo que aconteceu comigo e que me deixou chateada, triste ou nervosa, geralmente eu só quero que você me dê razão e diga que vai ficar tudo bem. Nem sempre, aliás, quase nunca, quero respostas, orientações e muito menos bronca.
3 - Geralmente eu não estou excitada, assim do nada. Preciso de estímulo sim! E por mais que você também precise às vezes, eu, no fundo, não estou nem aí. Sorry. Você é homem, eu tiro a roupa e me agacho e você está a fim. Com nós mulheres o negócio é mais embaixo...
4- Adoramos falar e sermos ouvidas. Eu sei que seria mais apropriado se eu enchesse os ouvidos de uma amiga (a Natália por exemplo), mas gosto de falar com você, porque gosto de você. E além do mais, repetindo, eu adoro falar, então não é suficiente falar só com minhas amigas. Se você não está mais com saco de me ouvir, tenha a decência de fingir que está ouvindo. Pode fingir mesmo. Não me importo não. Mesmo porque, não sei se já falei isso mas, eu adoro falar, então eventualmente vou me repetir e uma hora você pega.
5- Eu sei que não sou a mulher mais gostosa do mundo, então minta! Nem pense em dizer nada parecido nem sugestivo quanto a eu estar engordando. Mesmo se eu estiver. Porque, cá pra nós, você não é o Brad Pitt!

domingo, fevereiro 24

Lua

Sou pura, sou doce
Sou tudo, sou nada
Sou água, sou fogo
Sou anjo, sou imaculada

Sou pedra, sou espinho
Sou o mundo, sou um grão
Sou virtude, desvario
Sou a terra, sou o chão

Sou futuro, futurista
Sou criança, sou mimada
Sou jovem, leviana
Sou alegre, enfatizada

Sou tristeza, sou irreversível
Sou amiga, sou coerente
Sou plebléia, sou riqueza
Sou donzela, sou carente

Sou vilipendiada, ameaçada
Sou fraca, sou forte
Sou a dor, sou vital
Sou a vida, sou a morte

*escrito em 1999